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Inteligência Artificial 23 de June de 2026

A Inteligência Artificial vai criar mais milionários do que a internet, mas também pode criar a maior crise laboral do século

A Inteligência Artificial vai criar mais milionários do que a internet, mas também pode criar a maior crise laboral do século
A história da humanidade é marcada por revoluções tecnológicas que alteraram profundamente a forma como trabalhamos, produzimos riqueza e organizamos as sociedades. A máquina a vapor impulsionou a Revolução Industrial. A eletricidade transformou a produção. A Internet alterou a comunicação, o comércio e o acesso ao conhecimento. Contudo, nenhuma destas revoluções parece reunir simultaneamente a velocidade, a abrangência e a capacidade disruptiva da Inteligência Artificial.
Nos próximos três a cinco anos, assistiremos provavelmente à maior transferência de valor económico desde o aparecimento da Internet. E, ao contrário do que sucedeu no final da década de 1990, esta transformação não ficará confinada ao setor tecnológico. A Inteligência Artificial penetrará praticamente todos os setores de atividade: jurídico, financeiro, industrial, saúde, educação, administração pública, logística, comunicação, marketing e serviços profissionais.
A minha convicção é simples: a Inteligência Artificial criará mais milionários do que a Internet criou na sua génese. Mas a mesma força que criará riqueza numa escala sem precedentes poderá também provocar uma destruição significativa de postos de trabalho, gerando tensões sociais que os Estados ainda não parecem preparados para enfrentar.
Quando a Internet surgiu, a criação de riqueza estava fortemente dependente da construção de infraestruturas complexas, da existência de financiamento significativo e da capacidade de escalar plataformas globais.
Hoje, a Inteligência Artificial altera esse paradigma.
Um pequeno grupo de empreendedores, programadores, juristas, consultores, criadores de conteúdo ou especialistas de negócio consegue, com recurso a ferramentas de IA generativa, produzir em dias aquilo que anteriormente exigia equipas inteiras durante meses. A redução dos custos de entrada nos mercados é brutal.
Em “The Age of AI”, obra de Henry Kissinger, Eric Schmidt e Daniel Huttenlocher, os autores defendem que a Inteligência Artificial representa uma mudança civilizacional comparável ao Iluminismo, pela forma como altera a relação do ser humano com o conhecimento.
Também Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, em “The Second Machine Age”, sustentam que estamos perante uma transformação económica em que as tecnologias digitais passam a substituir não apenas o trabalho físico, mas também parcelas crescentes do trabalho cognitivo.
O resultado previsível é uma aceleração sem precedentes da criação de riqueza.
Nunca foi tão fácil transformar conhecimento especializado em produto escalável, nunca foi tão simples atingir mercados globais, nunca foi tão acessível criar empresas altamente lucrativas com estruturas operacionais reduzidas.
Daí a convicção de que veremos surgir, nos próximos anos, uma nova geração de milionários à escala mundial, impulsionados não pela posse de capital físico, mas pela capacidade de utilizar a Inteligência Artificial para multiplicar produtividade e conhecimento.
Contudo, não me interessa fazer uma análise simplista de ricos versus pobres. Interessa-me perceber o que isto significa para países como Portugal e Espanha, para as PME ibéricas que constituem o tecido económico da nossa região, para os trabalhadores que amanhã acordarão com as suas funções redefinidas ou extintas.
Mas a história económica ensina-nos que toda a inovação gera vencedores e vencidos.
Joseph Schumpeter designou este fenómeno como “destruição criadora”.
A inovação cria novos setores e novas oportunidades, mas simultaneamente elimina atividades económicas anteriormente relevantes, a diferença é que, desta vez, a velocidade poderá ser incomparavelmente superior.
Ao contrário das revoluções industriais anteriores, que substituíram sobretudo tarefas manuais, a Inteligência Artificial atinge profissões tradicionalmente consideradas qualificadas.
Juristas, Contabilistas, Tradutores, Designers, Programadores, Analistas financeiros, Administrativos, Profissionais de apoio ao cliente, Jornalistas, Técnicos intermédios...
A questão já não é saber se a IA consegue executar determinadas tarefas, em muitos casos, já o faz.
A questão é saber quantos profissionais serão necessários para supervisionar aquilo que antes era executado por dezenas de pessoas.
Em “Power and Progress”, Daron Acemoglu e Simon Johnson alertam precisamente para este risco: a tecnologia não conduz inevitavelmente ao progresso social. Tudo depende da forma como as sociedades escolhem distribuir os benefícios gerados pela inovação.
Se a produtividade aumentar mas os ganhos ficarem concentrados num número reduzido de empresas e indivíduos, o resultado poderá ser uma sociedade mais desigual, apesar de tecnologicamente mais avançada.
Trabalho todos os dias com realidades concretas: famílias em processos de insolvência, trabalhadores em disputas laborais, empresários a tentar crescer num mercado cada vez mais competitivo. A IA não é para mim uma abstração académica, antes sim uma força que já está a remodelar os contratos que redijo, as negociações que conduzo, as estratégias que aconselho.
Como diria Till Leopold, do Fórum Económico Mundial: chegou a hora de empresas e governos se unirem, investirem em qualificação e criarem uma força de trabalho global equitativa e resiliente. Concordo. Mas acrescento: também chegou a hora de cada um de nós (profissionais, académicos, cidadãos) assumir uma posição clara sobre que tipo de futuro queremos construir.
Neste contexto, a aprovação do AI Act pela União Europeia constitui um marco regulatório relevante.
Pela primeira vez, um bloco económico procura estabelecer regras horizontais para o desenvolvimento e utilização da Inteligência Artificial, adotando uma abordagem baseada no risco.
O regulamento pretende garantir transparência, segurança, supervisão humana e proteção dos direitos fundamentais.
Trata-se de um avanço importante.
Contudo, importa reconhecer que o AI Act não foi concebido para resolver os impactos socioeconómicos da automação.
O regulamento procura disciplinar a tecnologia.
Não resolve, por si só, a questão do emprego, não responde ao problema da requalificação massiva dos trabalhadores, não oferece uma estratégia para os setores que poderão sofrer uma substituição acelerada.
Em suma, regula os riscos tecnológicos, mas não elimina os riscos sociais.
A questão central dos próximos anos não será tecnológica, será humana.
A capacidade de adaptação das sociedades determinará se a Inteligência Artificial se transforma numa oportunidade histórica ou numa fonte de instabilidade económica.
Por essa razão, considero imperativo desenvolver programas nacionais de requalificação profissional de grande escala, direcionados quer para trabalhadores atualmente empregados, quer para aqueles que venham a ser afetados pelos processos de automação.
Não bastará oferecer cursos curtos ou formações genéricas.
Será necessária uma estratégia coordenada entre o Estado, os municípios, as universidades, as escolas profissionais e o tecido empresarial.
O Instituto do Emprego e Formação Profissional deverá assumir um papel central nesse processo.
Mas não poderá agir isoladamente.
Defendo a criação de programas de requalificação intensiva, com duração ajustada às necessidades dos diferentes setores, ministrados em articulação com instituições de ensino superior, autarquias locais, escolas profissionais e empresas.
Estas formações deverão privilegiar competências efetivamente valorizadas pelo mercado:
• Inteligência Artificial aplicada;
• análise de dados;
• cibersegurança;
• automação industrial;
• manutenção tecnológica;
• programação;
• marketing digital;
• gestão de projetos;
• competências técnicas especializadas;
• competências humanas dificilmente substituíveis pela IA.

A urgência é evidente e quanto mais tarde forem implementadas estas medidas, maior será a onda de choque social.
Existe ainda um elemento frequentemente esquecido.
A formação só será eficaz se estiver ligada ao mercado de trabalho real.
Por isso, considero essencial a criação de estágios intermédios e finais obrigatórios em contexto empresarial.
As empresas devem participar ativamente no processo de avaliação das competências adquiridas, pois é quem está no terreno que conhece melhor do que ninguém as necessidades efetivas do mercado.
O modelo deverá aproximar-se de uma lógica dual de aprendizagem, em que a componente académica se articula permanentemente com a experiência prática.
Mais do que atribuir certificados, importa criar profissionais efetivamente preparados para responder às exigências da nova economia.
A Inteligência Artificial não é uma ameaça inevitável nem uma promessa garantida.
É uma ferramenta de transformação.
Nos próximos três a cinco anos veremos provavelmente nascer milhares de novas empresas, milhões de novos negócios e uma geração de empreendedores que acumulará riqueza numa escala sem precedentes.
Mas veremos também profissões desaparecer, funções serem automatizadas e setores inteiros serem obrigados a reinventar-se.
A verdadeira questão não é tecnológica.
É política, económica e social.
A História recordará esta década não pela capacidade das máquinas, mas pela capacidade dos seres humanos para se adaptarem à mudança.
Se formos capazes de preparar os trabalhadores para a nova realidade, a Inteligência Artificial poderá tornar-se o maior motor de prosperidade da nossa geração.
Se falharmos essa missão, a mesma tecnologia que criará milhares de milionários poderá também deixar milhões de pessoas para trás.
O futuro não está escrito. Mas está a ser escrito agora. E prefiro ser um dos que escreve a um dos que apenas lê.